
Sabor. Textura. Cheiro. Cor. Provo aromas, engulo percepção visual, inalo cocção – experimento.
Atear fogo pode ser o início do ritual gastronômico; controlá-lo, requisito fundamental; apagá-lo, último passo antes da degustação. Cozinhar é uma ciência sagrada e cada ingrediente um item a ser explorado.
Seleciono iguarias em ordem numérica, pois cada qual tem a sua vez de se juntar a sauteuse. Epifania de gestos, imersão dos sentidos – sinto-me feiticeira preparando poções. Será a cozinha o meu castelo? Pupunha. Tucupi. Mandioca pra empratar. Decidir o vinho com a acuidade da enogastronomia sem esquecer uma pitada de veneno para harmonizar a refeição.
E aí? Está servido? Escalfo. Defumo. Amasso gentilmente e arremeço a massa. Não brinco, mas faço caretas. Prendo os cabelos com echarpe – acho que influencia minha inspiração – não sei.
A Dolma me protege. Vesti-la não é apenas protocolo mas cerimonial; talvez, metamorfose de mim mesma. Alho-cebola, manteiga-azeite. Faca, colher, fouet. Dentro do castelo não há noite nem dia apenas brumas de açafrão. Tempo. Que tempo? Tempo de cozimento à que devo respeito. Fora esse, horas sem minutos nem segundos – apenas períodos contínuos abismados em meio a ação intermitente do fazer e provar.
A quem devo a honra? Ao espaço que se constroi para exercer a profissão: utencílius-mãos, fogão-olhos, ingredientes-boca, narinas-exaustor, cozinha-castelo-cabeça.